Contrariando as expectativas de alguns e fortalecendo a convicção de muitos, o CDVDH chega a sua adolescência com muito vigor e credibilidade social. O processo que culminou em sua existência tem bases sólidas, pois se sustenta na espiritualidade cristã. Assim, ele nasce e se estrutura pela ação e a convicção de que vale a pena lutar e se colocar no lugar dos pobres e oprimidos, afinal as Bem Aventuranças nos ensina que “Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos céus!”.
Alimentando a esperança dos humildes, enfrentando a (des) humanidade de homens cruéis, desafiando e demonstrando concretamente ao Estado de que é possível construir relações mais humanizadoras, onde homens e mulheres independentes de suas crenças e de sua etnia conseguem alcançar sua dignidade e ajudar a construir um Mundo novo, fundado na fraternidade, solidariedade, justiça e paz, o CDVDH começa a galgar os degraus para fase adulta.
Nessa caminhada segue os ensinamentos humanísticos da Bíblia, quando fala em nome daqueles e daquelas que não podem se defender, quando protege os direitos dos desamparados, porque sabe que esta é sua missão. Focando-se em seu dever de essência – defender a vida e dos direitos humanos onde forem mais ameaçados, com privilegiada atenção aos mais pobres, oprimidos e excluídos, luta sem cessar, apoiando-se em outros organismos sociais que crêem e agem com a plena inquietude de transformar sonhos em realidade.
Nestes 13 anos foram muitos obstáculos vencidos, porém a capacidade de se indignar frente à desumanidade, tornou possível por meio de greve de fome, denúncias, mobilizações populares, jornadas da cidadania, audiências e atos públicos, abaixo assinados e campanhas fazer o povo ter vez e voz, assumindo assim sua cidadania.
Muitas sementes plantadas na terra árida da injustiça ao longo desse tempo, fizeram com que nascesse fruto saudável como os Centros Comunitários, ARCA FM, CODIGMA, Centro de Defesa de Bom Jesus das Selvas e, temos certeza que muitos outros frutos haverão de ofertar suas sementes. Neste canteiro onde as flores são o Povo, haveremos de ver o sol brilhar para todos e todas.
Parabéns para todos e todas que lutam e acreditam que lutando podem transformar sua condição de vida e a dos seus irmãos e irmãs, pois é deste Povo que o CDVDH se fez adolescente e certamente chegará a fase idosa!
ARTIGO DE OPINIÃO
CDVDH 13 anos
Com os seus 13 anos, o Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos entra a todo direito na adolescência. Idade difícil, dissemos várias vezes.É o tempo da rebeldia contra os 'pais', para se afirmar por suas próprias escolhas. Período em que uma pessoa assume identidade nova e teima para ser reconhecida como adulta.
Tempo de decidir-se para deixar algumas atitudes que não cabem mais à etapa atual da vida. Etapa de paixão, raiva, sede de justiça cada vez mais consciente. Uma fase, a adolescência, em que ainda não perdemos o sonho de mudar o mundo e resolver seus problemas.Idade contraditória, cheia de impulsos positivos, mas também de incoerências. Vital e criativa, mas muitas vezes em conflito consigo mesma. Tudo isso é e será ainda por um tempo o Centro de Defesa.
Em seu aniversário, os amigos mais próximos se recolhem para celebrar: não somente a vida do Centro, mas as muitas vidas resgatadas e acompanhadas passo a passo ao longo desses anos.Como à noite é bonito parar um pouco e olhar atrás para o dia que se passou, assim é rico nesse aniversário sentir a vida que corre na história do CDVDH.
Resgatamos nomes e rostos de pessoas libertadas do trabalho escravo, de crianças e adolescentes que despertaram sua criatividade e protagonismo.
Passam em frente aos olhos da memória pais e lideranças dos bairros, acompanhados pelos núcleos do Jacu, da Vila Bom Jardim, da Capelosa, da Vila Ildemar. Jovens que através da arte se redescobriram capazes de beleza e sonho. Mensagens de esperança e teimosia pelos trajes de Josimo ou da Quilombagem. Lutas ainda não concluídas pela valorização da cultura, pela dignidade no trabalho, pelo direito à moradia digna e saudável, por modelos de desenvolvimento respeitosos da vida... Celebramos o trabalho silencioso, nos bastidores, do acompanhamento jurídico, em constante conflito com a 'justiça' cegamente atraída pelo cheiro do dinheiro e do poder. Ressoa o esforço constante de comunicação alternativa, pela rádio comunitária e por todas as oportunidades de ocupar a mídia. Brilha, infelizmente ainda não de luz própria, a intuição de novos modelos de geração de renda pelas cooperativas de produção de carvão, brinquedos, papel reciclado.
Na correria do dia-a-dia, a densidade do trabalho e a historia única e especial de cada pessoa encontrada se perdem, dentro das engrenagens do ritmo e dos prazos para se cumprir.
Se não pararmos, corremos o perigo de esgotar e perder o gosto, as motivações e a vocação do serviço à vida. É ali que Deus se esconde: nesses momentos únicos de pausa, contemplação e releitura daquilo que estamos construindo e de como a vida está nos moldando.
Centro de Defesa, não perca sua mística!
Dentro da carteira de trabalho de cada empregado deveríamos encontrar a memória, as raízes, o suor da paixão, do desinteresse e da gratuidade, o orgulho de não ser funcionários, mas de responder a uma vocação. Na camisa dos voluntários e dos sócios deveríamos enxergar as marcas do companheirismo, a identificação pessoal, a satisfação de uma vida que faz sentido e tem horizontes comuns a serem alcançados. A etapa adulta está às portas; já enxergamos alguns sinais de maturidade, sobretudo pela riqueza e o desafio de educar os filhos.
Comboni, que animou Carmem e Danilo a fundar o CDVDH, insistia decididamente numa coisa: Salvar a África com a própria África. Para nós, em Açailândia, isto significa assumir com paciência e teimosia a tarefa de criar e fortalecer novas gerações de defensores de direitos humanos. A história de hoje ensina que não faz sentido agir sozinhos: o segredo está no trabalho de rede e em estratégias de longo prazo para multiplicar lideranças conscientes.
O projeto “Rede de Cidadania”, recentemente começado em parceria com vários grupos e entidades de Açailândia, é fruto dessa intuição e (juntamente com todo o plano formativo em três níveis progressivos) deveria ser a “menina dos olhos” do CDVDH.
Parabéns, Centro de Defesa: a assoprar às treze velinhas do aniversário estaremos muitos de nós, sentindo-nos parte dessa vida e história. Seguimos juntos para frente!
Pe. Dário Bossi-Paróquia São João Batista